quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Uma segurança ilusória

“Isso nunca deveria acontecer. Vigilantes armados não servem para proteger patrimônio onde há circulação de pessoas. Talvez sirvam para armazéns, mas não para shoppings ou bancos. Os vigilantes não estão preparados para confrontos, assim como a polícia em geral não está. Eu evitaria um shopping com segurança armado, porque se tratam de pessoas mal preparadas com armas na cintura”


Esta é a opinião de José Vicente da Silva Filho, especialista em segurança pública e coronel da reserva da Polícia Militar, sobre a adoção de seguranças armados em certos shopping de São Paulo para coibir assaltos. Em entrevista ao UOL Notícias, ele disse ainda que a prática é “enganosa e perigosa”, porque traz uma falsa sensação de segurança.

Um fato que poderia servir de exemplo para o que diz o especialista é a morte do aposentado Domingos Conceição dos Santos, baleado por um segurança armado em frente a uma agência bancária de São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo, em 6 de maio deste ano. O episódio foi citado em post neste blog recentemente.

domingo, 17 de outubro de 2010

Quem de fato está preso ou em liberdade?

Chácara Flora, bairro de alto padrão da zona sul de São Paulo. Casas e condomínios suntuosos, muitos deles protegidos por altos muros, cercas eletrificadas, seguranças particulares ou tudo isso junto. Ruas arborizadas e calmas, apenas com o movimento de um ou outro pedestre, além de alguns carros.


A aparente calma e paz neste e em outros bairros e condomínios de alto padrão –
não apenas de São Paulo, mas também em outras cidades brasileiras – tem por trás um sentimento de medo, insegurança. Quem tem mais recursos, não hesita em gastar em busca de proteção.

Mas qual o real preço dessa proteção? Se pararmos para pensar bem, tais bairros e condomínios tornam-se verdadeiras prisões domiciliares e, seus moradores, pessoas encarceradas. Talvez um tipo de regime semiaberto, no qual trabalha-se fora de casa durante o dia e retornem à noite. Mas ao pensar bem, pode-se perceber no ar a sensação de estar em uma prisão, como bem mostra a música “A Minha Alma”, da banda carioca O Rappa: “As grades do condomínio são para trazer proteção. Mas também trazem a dúvida se é você que está nesta prisão”

Em matéria de violência e da tentativa de se prevenir dela, a regra que vale é a do “salve-se quem puder”. Mas cada vez mais a impressão é que pouco adianta fechar-se em condomínios e ilhas de excelência em segurança e qualidade de vida se a população, independente de onde vive, não se mobilizar em busca de uma melhor segurança pública, que se estenda a todos e não somente a alguns poucos [supostos] privilegiados.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Mais do mesmo

"A desigualdade é o maior problema, porque ela enfraquece o crescimento econômico, leva a altos níveis de criminalidade e insegurança, e força o país a gastar seus escassos recursos com polícia e prisões", afirma o americano Barry Ames, diretor do departamento de ciência política da Universidade de Pittsburgh e especialista em Brasil no Centro de Estudos Latino-Americanos da instituição.

Ames é um dos acadêmicos consultados pela BBC Brasil como parte da série "O Que Falta ao Brasil?" que discute os desafios do país para se tornar uma nação desenvolvida. A matéria sobre a consulta segue no link abaixo:

http://www1.folha.uol.com.br/bbc/805732-para-brasilianistas-desigualdade-enfraquece-crescimento.shtml

Como já foi falado aqui neste espaço, de nada adianta “enxugar gelo” construindo presídios e colocando policiais nas ruas e não combater as reais causas da violência e criminalidade do país: a absurda e abissal desigualdade social.

Como diria Denis Mizne, diretor do Instituto Sou da Paz, durante debate sobre segurança pública na Fecomercio no fim de agosto, “sempre existe uma solução rápida, simples, barata e... errada”

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O fim da atualização do site PE Bodycount

Vencedor do prêmio Vladmir Herzog 2007, na categoria Internet, e do Tim Lopes de investigação em 2008, além de reconhecimento internacional. Mas nada disso foi suficiente para que o PE Bodycount, site que fazia a contagem dos homicídios ocorridos em Pernambuco, continuasse na ativa. No dia 8 de setembro foi feita a última atualização do contador, que deixa de operar por falta de recursos.



O site foi criado no começo de 2007, como uma forma de debater a segurança pública no Estado, na época o mais violento do Brasil. Além da contagem na web, os responsáveis pelo site também marcavam com tinta vermelha os locais onde ocorriam os homicídios e chegaram a contar com um contador instalado em uma grande avenida do Recife. A iniciativa, bancada por uma universidade, acabou após um ano, com o fim do patrocínio da instituição. O relógio custava R$ 14 mil por ano

Seriam necessários R$ 3.000 mensais para que o site continuasse na ativa, mas a verba teria de vir do próprio bolso dos idealizadores, tornando praticamente impossível a manutenção do espaço.

Com isso, há dois fatos importantes:

1 – o PE Bodycount deixa um importante legado, ao jogar luz em um tema pouco discutido em PE, a segurança pública, mostrando que outros lugares do Brasil além de Rio e São Paulo também sofrem com as mazelas da desigualdade, da violência e da impunidade. Há sempre a expectativa de que, um dia, o site possa voltar à ativa. Mas isso não parece possível, pelo menos a curto ou médio prazo.

2 – não há como negar que o debate em segurança pública em PE e no Brasil sai perdendo, e muito, com o fim do PE Bodycount. O site não se limitava ao papel de contador de homicídios, e tal versatilidade foi o que rendeu amplo reconhecimento ao trabalho. Infelizmente, o tema da segurança pública ainda é subestimado ou tratado de forma simplista pelo poder público e por grande parte da mídia. É considerado um vespeiro no qual poucos querem colocar as mãos.

Na sociedade civil, a compreensão da importância do tema já é maior, mas ainda insuficiente para que projetos como o PE Bodycount tenham condições de sobreviver. A ausência de patrocínios e incentivos a práticas como as do site é fatal

Mais informações e um pouco da repercussão do fim do PE Bodycount seguem abaixo:

http://www.pebodycount.com.br/home/index.php

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2010/09/09/referencia-desde-2007-contador-de-homicidios-de-pe-e-desativado-por-falta-de-recursos.jhtm

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A “brilhante” ação de sábado da PM, em Heliópolis

No último sábado, a TV Record exibiu uma reportagem na favela de Heliópolis, a maior de São Paulo, mostrando como a PM acabou com uma boca de fumo no local. A estratégia adotada: policiais se passaram por candidato e cabos eleitorais para se aproximar da comunidade e descobrir quem chefiava a boca de fumo.

Na matéria, a ação foi retratada como de um grande sucesso, como se o tráfico em Heliópolis acabasse após o episódio. Mas não é preciso muito esforço para perceber como esse “peixe vendido” está estragado. Vamos aos fatos:

1 - A maior favela de São Paulo não tem apenas uma boca de fumo. Aliás, Heliópolis tem suas próprias subdivisões, e o ponto de venda estourado é apenas um deles, existente em uma dessas subdivisões. Os demais permanecem, ao que parece, intactos

2 – A “tática usada”, de se passar por cabos eleitorais. De início, já é um erro divulgar a estratégia usada para debelar um crime, uma quadrilha e afins. Uma superestimação que, na verdade, não mostra a “inteligência” da polícia, mas justamente a falta da mesma. Em um jogo de xadrez ou de pôquer, você revela suas armas, sua estratégia para ganhar o jogo? Elementar que não...

3 – ainda sobre a brilhante tática adotada pela PM: agora, será bem complicado para um candidato bem intencionado – sim, eles são minoria, mas de fato existem – fazer campanha em Heliópolis. Como a comunidade vai saber se são candidatos ou policiais disfarçados? E quem ganha com esse jogo são os criminosos...

Há outros pontos falhos na “bem sucedida” intervenção da PM em Heliópolis, mas os três já citados mostram que a corporação tentou, literalmente, jogar para a torcida e mostrar serviço. E também para perceber que esta ação foi um belo tiro n’água.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Iniciativa rara, precedente positivo

Se o post anterior fala de um precedente perigoso, agora aí vai um daqueles que podem ser amplamente positivos

Em uma iniciativa rara, o Ministério Público de SP pede o seqüestro de R$ 162 mil apreendidos de um integrante da facção criminosa PCC em 2005. O dinheiro seria usado para garantir indenização à família do bombeiro João Alberto da Costa, morto em maio de 2006 durante um ataque da organização.

A expectativa é de que a decisão, caso seja favorável, abra precedente para que outros agentes policiais, civis ou militares, ou mesmo pessoas comuns, possam ser indenizadas por prejuízos decorrentes de atos criminosos.

“É necessário que a sociedade saiba que qualquer lucro, qualquer bem oriundo de atividade de organização criminosa poderá e será utilizado para o ressarcimento de danos e pagamento de indenizações a policiais – civis ou militares – que porventura tombem na defesa da sociedade, bem como de pessoas honestas que sejam também atacadas pelo crime organizado”, diz o promotor de Justiça Carlos Roberto Marangoni Talarico, autor da ação, em reportagem do UOL Notícias. A matéria pode ser lida por meio do link abaixo:

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2010/08/24/mp-pede-sequestro-de-r-162-mil-do-pcc-para-indenizar-vitimas-de-ataques.jhtm

OK, até agora a iniciativa merece palmas. Se a Justiça acatar a decisão, pode gerar um precedente positivo. Mas ela também valeria para as 493 pessoas que morreram após a reação da PM aos ataques do PCC em maio de 2006? Ou os familiares das vítimas dos chamados Crimes de Maio continuariam à margem do processo de apuração das mortes?

Aí está uma boa pergunta que não quer calar, mesmo que insistam em mantê-la silenciada

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Precedente perigoso

Após uma série de assaltos a shoppings de São Paulo nos últimos meses, alguns centros de compras da cidade resolveram adotar a solução mais “rápida” contra a insegurança gerada pelos crimes: colocar segurança privada armada para proteger lojas e consumidores.

Essa solução, aparentemente a mais prática, rápida e efetiva a ser tomada, está longe de ser a melhor.

Ao que parece, a maioria da população já se esqueceu do ocorrido com o aposentado Domingos Conceição dos Santos, de 47 anos, que foi morto por um segurança particular armado ao tentar passar pela porta giratória de uma agência bancária em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo. Barrado por possuir um marca-passo, o aposentado discutiu com um dos vigilantes da agência, que atirou contra a cabeça de Domingos.

Para refrescar a memória, aí vai a notícia sobre a morte de Domingos:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u733229.shtml

Logo após a tragédia, mais uma vez falou-se na questão da segurança privada, mas o episódio logo foi esquecido – pessoa pobre, zona leste da capital, pouco elementos que ajudam a fixar o fato na memória popular.

Agora, após o caso dos shoppings, a segurança armada privada aparece como solução para garantir a integridade de consumidores e lojistas – até a próxima tragédia, naturalmente...