domingo, 17 de fevereiro de 2008

Independência do Kosovo traz incerteza para a Europa

Um novo país surgiu hoje na Europa. É o Kosovo, antiga província sérvia, umas das ex-repúblicas iugoslavas, que estava sob supervisão da ONU desde 1999. A independência foi aprovada em sessão especial pelo Parlamento do Kosovo, dirigida pelo premiê Hashim Thaci.

Não é nenhuma novidade o surgimento de um outro país nesta região do mundo, marcada historicamente pela instabilidade política e étnica - em maio de 2006 Montenegro separou-se da Sérvia após um plebiscito. Mas a questão do Kosovo, apesar de sua independência ser vista como inevitável, é bem mais complicada.

Uma batalha que ainda não terminou

Para os sérvios, o Kosovo é o berço de sua pátria, histórico e religioso. Foi nessa região que, em 1389, o então Império Sérvio, em expansão pela região, foi vencido e conquistado pelo Império Otomano. A Batalha de Kosovo-Polje, como ficou conhecida, foi vencida pelos otomanos, e os sérvios perderam a independência, recuperando-a somente em 1875. Mas não a região do Kosovo, que só voltaria às mãos dos sérvios após o fim da Primeira Guerra Mundial.

Em 1989, o presidente da então República Sérvia da Iugoslávia, Slobodan Milosevic, aproveitando o 600º aniversário da Batalha de Kosovo-Polje, fez um discurso inflamado que acendeu o estopim do nacionalismo sérvio e conclamando-os a lutarem pela Grande Sérvia. Começava aí o fim da antiga Iugoslávia. O mesmo Milosevic voltaia a investir contra a província em 1998, motivando a intervenção da Otan na Sérvia no ano seguinte. Com o fim da guerra, a ONU assumiu a direção da região, que ainda continuou ligada a Sérvia.

É no Kosovo que estão localizados os principais santuários cristãos ortodoxos, religião predominante da Sérvia – apesar de 90% população da província ser de origem albanesa e de fé muçulmana.

Comunidade internacional

A expectativa é de que a independência do Kosovo seja reconhecida imediatamente pela maioria dos países que formam a União Européia (UE) e pelos Estados Unidos, além da Albânia. A Eslovênia, única das ex-repúblicas iugoslavas a fazer parte da UE e que atualmente preside o bloco, também deve reconhecer o novo país em breve.

A Rússia sustenta que a independência do Kosovo abrirá a "caixa de Pandora" das pretensões independentistas de muitas outras regiões, tanto no "quintal" da Rússia (Abkházia, Ossétia do Sul, Nagorno Karabakh e Transnístria), quanto na Espanha, França e Itália.

"É a primeira vez que se aborda a saída de uma região de dentro de um Estado soberano. O Kosovo será um precedente para quase 200 regiões e Estados do mundo", advertiu o ministro de Exteriores russo, Serguei Lavrov. Analistas internacionais vêem a questão do Kosovo como um novo embate entre EUA e Rússia, mas nada ainda que se compare aos tempos da Guerra Fria.

O primeiro-ministro sérvio,Vojislav Kostunica, disse hoje que a Sérvia lutará "sem o uso da força" para recuperar o Kosovo, e acusou os Estados Unidos de ter imposto seus interesses nessa província que hoje declarou sua independência, e a União Européia (UE) de ter "abaixado a cabeça". Kostunica chamou ainda o Kosovo de "falso Estado". O presidente sérvio Boris Tadic afirmou que "a Sérvia nunca reconhecerá a independência do Kosovo".

Resta aguardar as cenas dos próximos capítulos dessa trama que dá sinais de que se estendera ainda por um longo tempo.


Fontes: AFP, B92, EFE, Reuters.

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